O ano em que tivemos dois Carnavais

carnaval adiado

Imagem: Jornal do Brazil, 11 de fevereiro de 1912

Por Rosane Rodrigues*

Já estamos em ritmo de folia, e para muitas pessoas esta é a melhor época do ano. Um dia desses, um amigo apaixonado por samba comentou: “Eu não entendo por que só tem carnaval uma vez por ano. O Brasil deveria ter dois carnavais no mínimo.” O sambista delirou, sonhou ou isso é possível? Agora, não sei, mas já foi e não é papo de bêbada.

Você já imaginou cancelar a Folia de Momo? Para quem gosta de samba, confete e purpurina, a ideia parece um pesadelo.  E foi o que realmente aconteceu há pouco mais de 100 anos. O motivo foi a morte do então chanceler e ministro do exterior, o Barão do Rio Branco.  José Maria Paranhos Júnior era um homem apaixonado por carnaval e pela cultura brasileira. Foi o diplomata que definiu as fronteiras do Brasil, como nós conhecemos hoje. Naquela época, cada vitória, seja contra a Argentina, a Bolívia, seja em tribunais internacionais, representava uma alegria para a população. Era quase um jogo de futebol; o Barão, o grande artilheiro.

O Barão morreu em 10 de fevereiro de 1912. Estava tudo pronto para o Carnaval no dia 17 de fevereiro. O clima de choro e pesar atrapalhou o samba. O governo decretou luto oficial, porém muitos blocos desfilaram.  Resultado: depois do luto, outro Carnaval começou, em 6 de abril. Em homenagem ao Barão do Rio Branco e aos foliões brasileiros, o carnaval de 1912 ficou marcado para sempre na história cultural brasileira.

“Com a morte do Barão
Tivemos dois carnavá
Ai que bom ai que gostoso
Se morresse o Marechá”
(marchinha popular)

Então, eu expliquei para meu amigo que seu desejo de que se realizassem dois carnavais anuais não era um sonho tão distante. Havia acontecido uma vez. Quem sabe não aconteceria outra? O Carnaval é alegria, intensidade e diversão. Se for uma vez por ano, entregue-se sem pensar se vai ter outro. Se for duas vezes, ótimo. Seja como for, o conselho, meu caro leitor, é carpe diem. Você sabe o que significa? Trata-se de uma expressão em latim que significa aproveite o dia”. O termo foi escrito pelo poeta latino Horácio (65-8 a.C.), no Livro I de “Odes”, o qual, ao aconselhar sua amiga Leucone, escreveu: “… Carpe diem, quam minimum credula postero.”  Em uma tradução aberta, o conselho poderia ser traduzida como: “… Colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”.

O Barão do Rio Branco, com sua sabedoria, afirmou: “Existem no Brasil, apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o Carnaval…”

Então, carpe diem para você!

*Rosane Rodrigues é jornalista e mestre em Relações Internacionais.