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Perfil: Franca Sozzani

No dia 22 de dezembro, o mundo da moda sofreu uma grande perda: morreu Franca Sozzani, editora-chefe da Vogue Itália, que lutava contra um câncer no pulmão. Então, nada mais justo do que prestar uma homenagem a Franca traçando seu perfil na coluna de hoje.

À frente da revista de moda mais importante da Itália havia 28 anos, o trabalho de Franca estava longe da futilidade que pode rondar a fashion industry, não ficando adstrito a desfiles e tendências. Ao contrário, a jornalista adotou uma postura revolucionária ao abordar diversas questões sociais através de seus editoriais, rompendo com a aparência de catálogo que muitas publicações do tipo possuem.

Em tradução livre: “Todas as revistas podem ter as mesmas roupas. Vamos para o mesmo desfile, com as mesmas modelos. Então, se você não mudar o ponto de vista, você é apenas outro catálogo. Não precisamos de outro catálogo.”

Não é à toa que algumas edições da Vogue italiana se tornaram históricas, como a chamada “Black Issue”, dedicada a celebrar a beleza das mulheres negras e a “Makeovr Madness”, que discutiu os extremos em cirurgias plásticas. Um editorial igualmente famoso, impulsionado pelo aumento da violência doméstica na Itália, trazia modelos correndo de homens armados com facas. Ou seja, Sozzani, como editora de uma revista de moda, tinha a obrigação de apresentar as peças que fariam sucesso na estação, mas não se permitia fazer isso de maneira rasa, superficial.

A chamada “Black Issue”

Ela também ocupou o cargo de Embaixadora da Boa Vontade da ONU para o projeto “Moda para o desenvolvimento”, cujo objetivo é promover o crescimento econômico de países em desenvolvimento através da indústria da moda, além de ter angariado fundos para diversas causas sociais.

Num mundo onde o objetivo é usar as últimas novidades dos estilistas mais celebrados (melhor ainda se elas tiverem acabado de sair da passarela), Sozzani se mantinha sem qualquer afetação ou deslumbramento, sempre avessa à ideia de usar as peças da estação (que todo mundo estava usando). Se gostasse, por exemplo, de uma saia de coleção recém-lançada, comprava e guardava para usar depois, geralmente combinada com uma camisa antiga de seu guarda-roupa. Esse traço de sua personalidade é que tornava seu estilo tão único, interessante, especial.

Uma das pessoas mais influentes de seu meio, Franca acreditava que a moda não tem a ver com roupas, tem a ver com a vida. E foi essa visão que criou capas icônicas e lhe deu um lugar de destaque no mundo fashion, pois, num ambiente onde vemos muito do mesmo, ela inovou como ninguém.

Impossível os holofotes não se voltarem para uma pessoa com ideias tão originais e, mais importante, com a coragem necessária para romper com o padrão das publicações de moda. Seu estilo e o brilhantismo de suas ideias farão falta.

Descanse em paz, Franca Sozzani.

Amanda Perrut
E-mail: editorial@riofiqueligado.com.br
Instagram: @amandaperrut