Vasco da Gama, o Expresso da Vitória

Na imagem, o campeão de 1923. Fotografia retirada do Livro Club de Regatas Vasco da Gama. Histórico. Pesquisa e redação de José da Silva Rocha.

Conta o escritor Ruy Castro, em seu livro sobre a vida de Garrincha, que nos anos 40/50 todo menino, mesmo que fosse torcedor de outro clube, sonhava em jogar no Vasco da Gama. Devia ser algo semelhante ao fascínio que o Barcelona, da Espanha, exerce nos dias atuais.

Em 1949, o Vasco seria mais uma vez campeão carioca invicto, com campanha irretocável. Naquele ano, o Expresso da Vitória marcou 84 gols em 20 jogos, um recorde do campeonato. Entre 1945 e 1958, o time ganharia vários títulos, destacando-se sete campeonatos estaduais e o Sul-Americano de Clubes de 1948. O Vasco chegava a utilizar a equipe de reservas, chamada Expressinho, para jogar os torneios, enquanto os titulares excursionavam ou estavam cedidos à seleção brasileira de futebol.

Eram os anos do Expresso da Vitória. Assim era chamado o time. Muitas versões sobre a origem dessa expressão são veiculadas através dos tempos. A mais aceita afirma que, em meados dos anos 40, começou a formação da equipe quase imbatível. O nome teria surgido em um programa de calouros da Rádio Nacional, no qual um candidato à estrela da música popular dedicou sua canção ao clube e o chamou por esse apelido.

Situado na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Vasco possui uma forte marca popular. Foi criado como clube luso-brasileiro para a prática de remo no final do século XIX, em momento de forte sentimento nacionalista, de rejeição a Portugal. Essa coragem deve ter impregnado a sua história.

Na década de 1920, participava da primeira divisão, fato inadmissível para os demais clubes, visto que a torcida e o time eram repletos de negros, portugueses, nordestinos, trabalhadores. O clube foi acusado de possuir um time de profissionais. Coisa grave, afinal os jogadores eram, em sua maioria, estudantes de medicina ou direito. Gente bem-nascida.

Que os trabalhadores negros fossem jogar bola na rua, com os pés descalços, não em partidas oficiais, com chuteiras. Assim que pensavam. O futebol ainda não era um esporte das multidões.

Campeão em 1923, o Vasco sofreu sério constrangimento. Flamengo, Fluminense e outras agremiações abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMTD), fundando a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA). Em 1924, impuseram a condição de que o clube, para se filiar à nova entidade, deveria dispensar doze atletas sob a acusação de que teriam profissão.

Diante da ameaça, o presidente vascaíno, José Augusto Prestes, enviou uma carta a Arnaldo Guinle, diretor da AMEA, documento que ficou conhecido como “A Resposta Histórica”, recusando-se a submeter-se à recomendação cruel. Desiste de filiar-se à nova associação. Para os dirigentes dos rivais, não deveriam praticar o fino esporte “os que não sabiam ler e escrever corretamente, os que exerciam profissão ou emprego subalterno, como contínuo, servente, engraxate e motorista”.

Com a posição assumida, o Vasco permaneceu na LMTD , conquistando o título invicto de 1924. Em 1925, foi admitido na AMEA, mas sofreria novas ameaças. Era denunciado por não possuir campo. O Vasco, então, decidiu construir o seu estádio, para acatar a exigência da entidade. Em 1927, inaugurou São Januário, construído com recursos financeiros dos torcedores e sócios.

Ricardo Augusto dos Santos
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