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Rio de Janeiro Operário

 ricardo

Imagem: Operários da fábrica Bangu (tecidos), em 1892. Vejam a quantidade de crianças e mulheres. Fotografia retirada da Revista Rio de Janeiro, número 1, UFF, dezembro de 1985.

Nascido e criado no bairro do Grajaú, tenho memórias afetivas da infância e adolescência. Lembro-me perfeitamente das imagens e sons.  Apitos, sirenes. Área de moradia da classe média, dos funcionários públicos e militares, também havia, em redor da região – Andaraí, Vila Isabel e Aldeia Campista –, muitas indústrias. Distante da Zona Sul e do centro comercial e financeiro da cidade, esses bairros receberam muitas fábricas.

Morava em nossa casa, Maria, a enteada do sogro do meu tio Zé. Era uma portuguesa muito jovem que trabalhava como operária na América Fabril, uma empresa de tecidos. A primeira sirene, bem cedo, alertava: hora de acordar! A segunda indicava a entrada no trabalho. Havia outra fábrica de tecidos; uma de armamentos do exército e uma de papel. Também tinha a pedreira. Enfim, muitos apitos.

Uma característica esquecida ou ignorada é que o Rio de Janeiro foi uma cidade com um contingente alto de trabalhadores industriais, e essa força de trabalho era constituída de muitas mulheres e crianças, como a imigrante Maria, lá de casa.

Pouco confiáveis, os dados indicam que na segunda década do século XX a cidade possuía cerca de 1.100.000 habitantes, com as pesquisas apontando 170 mil operários nas fábricas. E a presença das mulheres e crianças era grande, mas concentrada em determinadas empresas e/ou funções que não necessitavam de conhecimento técnico.

Nas empresas metalúrgicas, predominavam os de sexo masculino, com larga utilização de menores de idade, carvoeiros, alimentando as fornalhas. Até crianças de 8 anos! Quem chegava à idade adulta formava as filas de atendimento da Santa Casa de Misericórdia.

Nas indústrias têxteis, a maior parte dos trabalhadores não especializados era constituída por esse exército de crianças e mulheres. Salários baixos, exploração da força de trabalho, alimentação precária, moradias insalubres: era (é) a realidade de muitos trabalhadores na “cidade maravilhosa”.

As estatísticas indicam números imprecisos, mas a maioria dos trabalhadores estava distribuída nas pequenas indústrias de metalurgia, fiação e fabricação de tecidos, assim como nas empresas de alimentos, nas ferrovias e na construção civil. Eram serventes, pedreiros, carpinteiros, portuários, padeiros, sapateiros e trabalhadores do comércio.

Ricardo Augusto dos Santos
E-mail: editorial@riofiqueligado.com.br