O Carnaval da Gripe Espanhola

ricardo - carnaval

Na imagem, podemos ver os “carros alegóricos” da Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo. Revista Careta. Carnaval de 1919.  Se o leitor deseja conhecer ou visualizar mais fotos do Carnaval da Gripe, acesse o artigo “O Carnaval, a peste e a ‘Espanhola’”, de minha autoria: http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v13n1/08.pdf

Será que, no Carnaval de 2017, a epidemia de zika será enredo de alguma escola de samba do Rio de Janeiro? Pouco provável. Em tempos marcados por patrocínios de grandes empresas, a doença não deverá atrair investidores. Porém, em 1919, aconteceu o Carnaval da Gripe. No ano anterior, uma epidemia de gripe abalou a cidade, mas isso não impediu que a enfermidade fosse tema predominante nas músicas, bailes e desfiles das Sociedades Carnavalescas.[1]

A epidemia começou em setembro de 1918 e atormentou os cariocas até novembro. No início, as pessoas apresentaram os sintomas de uma simples gripe. Mas era a terrível doença que entrava no Brasil pelos navios estrangeiros que ancoravam nos portos brasileiros.

Em uma cidade de um milhão de habitantes, morreram, segundo estimativas, 15 mil. Mais de 600 mil teriam ficado doentes. Os médicos aconselhavam limão, canela e canja de galinha.

Os cariocas morriam em casa e eram recolhidos em carroças do serviço de limpeza urbana. Nos cemitérios, coveiros abriam as valas, onde os cadáveres eram empilhados. Quanto mais mortos, mais a situação piorava. Faltavam coveiros. Afinal, eles também ficavam doentes. Foram, então, convocados os presidiários para auxiliar os enterros.

Em outubro, a epidemia paralisou a cidade. A imprensa noticiava o perigo de contrair a doença em locais de grande aglomeração: cinemas, fábricas, quartéis e escolas. No início de novembro, o número de óbitos colocava a população apavorada: mais de 500 mortos por dia!

A Gripe paralisou também as indústrias, o comércio, o lazer. Tudo parado. O medo apossou-se das pessoas. As narrativas mais terríveis falam de atos cometidos por indivíduos transtornados com a situação: suicídios, assassinatos e saques.

No final de 1918, a Espanhola foi embora. As pessoas retornaram ao cotidiano. Foram cuidar de suas vidas. A partir desse momento, desencadeou-se um conjunto de atitudes em relação à epidemia. Sentimentos de medo, melancolia e, também, de uma surpreendente alegria.

No fim de fevereiro, os cidadãos dessa cidade caíram na farra, comemorando o fato de que tinham sobrevivido ao flagelo. Os cronistas qualificam o Carnaval de 1919 como um dos mais animados. Ao que parece, houve um exorcismo carnavalesco. As revistas de época, O Malho, Careta e outras, documentam em dezenas de fotografias a folia que animou a cidade. Inúmeras músicas de carnaval com letras que “brincavam” com a doença, notas sobre a criação de blocos carnavalescos suburbanos e convites para bailes.[2]

Havia uma festa onde só existia espaço para a morte. Segundo a descrição dos sobreviventes, o medo e a presença exuberante da morte levavam à alteração das normas sociais durante e após a epidemia.

Você brincaria nesse Carnaval?

[1] No início do século XX, as Grandes Sociedades Carnavalescas alcançaram popularidade entre os cariocas. Dentre suas atividades, destacava-se o desfile de carros enfeitados pelas ruas do centro da cidade. O Clube dos Democráticos é remanescente dessa época. Ele nasceu em 1867, através de um prêmio da loteria que foi ganho por um grupo de estudantes.
[2] Em relação ao Carnaval de 1919, várias perguntas ainda estão por serem respondidas. Como as diferentes classes sociais ‘brincaram’ o carnaval da gripe?
Ricardo Augusto dos Santos
E-mail: editorial@riofiqueligado.com.br