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A Festa da Penha

col 2 - ricardo

Foto:  no centro da imagem, Pixinguinha com a flauta e Caninha, ao seu lado, com o cavaquinho. Festa da Penha, 1912. Retirada do livro Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura (Secretaria Municipal de Cultura: Rio de Janeiro, 1995).

Hoje, já sem a importância que lhe deu tradição, a Festa da Penha é apenas uma pequena lembrança do Rio de Janeiro. Originalmente, era uma festa religiosa de raízes portuguesas, realizada no alto do morro, com orações. No entanto, ao longo do tempo, foi adquirindo outras características. Foi se transformando em um evento marcante para toda a cidade.

Dezenas de milhares de pessoas compareciam, vindas pelos vagões dos trens que serviam a área da Leopoldina. Eram músicos, religiosos, famílias de origem portuguesa que lá iam para piqueniques com muito vinho e cerveja.

As barracas montadas pelas tias baianas ofereciam comidas e bebidas. Esse encontro das camadas populares abria o período carnavalesco. Sim, havia música! Muita música. O samba lançado na Penha tinha seu sucesso garantido no carnaval seguinte, pois, durante os finais de semana de outubro, ele seria cantado nas rodas formadas. Um dos compositores que frequentava a Festa da Penha era José Luiz de Morais (1883-1961), que entrou para a história da música popular brasileira com o sugestivo nome de Caninha.

Durante certo período de sua vida, Caninha ganhava a vida vendendo pedaços de cana-de-açúcar na estação de trens Central do Brasil, anunciando: “Olha a caninha, vamos comprar caninha doce!”

Sua presença no cenário musical do Rio teve início em princípios século passado, quando ele começou a aparecer nas casas das tias baianas*: Tia Dadá, na Pedra do Sal, e Tia Ciata**, na Praça XI. Tendo composto algumas músicas que não obtiveram muita repercussão, compareceu à Penha, em outubro de 1918, com um maxixe sobre a gripe espanhola, que agradou. A partir daí, Caninha passou a compor sambas com relativo sucesso para os carnavais seguintes. Chegou a disputar com Sinhô a primazia no mundo do samba.

Os versos da música de 1918 diziam assim:

“A Espanhola está aí

A Espanhola está aí

A coisa não está brincadeira

Quem tiver medo de morrer não venha

Mais à Penha.”

Caninha comentava sobre a gripe espanhola que aportou no Rio de Janeiro em setembro de 1918, quando os habitantes da cidade começaram a apresentar sintomas e quedaram doentes. Era a Espanhola, a doença que vinha da Europa pelos navios que ancoravam nos portos brasileiros.

Em um Rio de Janeiro com cerca de um milhão de habitantes, morreram, segundo estimativas, 15 mil pessoas. E 600 mil teriam ficado enfermas. Os médicos não sabiam como tratar o mal e receitavam canja e limão. Não que o Brasil não estivesse avisado. A gripe estava matando na Europa e, de acordo com as estatísticas mais modestas, seria responsável por mais de 20 a 30 milhões de mortes em todo o mundo.

Teve festa na Penha este ano? Algum samba sobre o mosquito Aedes ou a Zika?

*Populares nas ruas do Rio de Janeiro no início do século XX como quituteiras e doceiras, as tias baianas eram lideranças sociais dentro da comunidade negra da cidade. Guardiãs das tradições africanas, eram verdadeiras matriarcas de famílias unidas por laços étnicos, não necessariamente de sangue. As atividades que exerciam incluíam ainda as de: conselheiras, rezadeiras, curandeiras, mediadoras de conflitos, organizadoras de festa, administradoras dos recursos financeiros e encarregadas de providenciar o necessário para as festas, os rituais e a sobrevivência da comunidade. Pesquisas indicam que também tiveram ativa participação no mundo do samba como cantoras, instrumentistas e compositoras.
**Tia Ciata foi uma conhecida mãe-de-santo cujo terreiro, após as sessões, se tornava palco de festas e de encontro de nomes atualmente consagrados do samba: Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, João da Baiana e Mauro de Almeida. “Pelo Telefone”, o primeiro samba, composto por Donga e Mauro de Almeida, ali foi concebido. Não por acaso, sua casa é considerada o berço do samba.

Ricardo Augusto dos Santos
E-mail: editorial@riofiqueligado.com.br