A demolição do Morro do Castelo

coluna 4 - historiasdorio

Imagem: Procissão de São Sebastião, realizada no Morro do Castelo em 20 de janeiro de 1919.
Reprodução retirada da revista Careta.

O desmonte do Morro do Castelo foi um fato que marcou a cidade do Rio de Janeiro e transformou a vida dos seus moradores. Muito próximo ao mar, o morro se localizava no centro da cidade, na área atualmente ocupada, de um lado, pela rua São José e, de outro, pela avenida Rio Branco, que havia sido construída na primeira década do século XX.

Como ele foi demolido? Por picaretas e jatos d’água, com o entulho sendo transportado até o local onde, mais tarde, seria erguido o aeroporto Santos Dumont.

O prefeito Carlos Sampaio estabelecera como uma das metas de sua administração (1920–22) a preparação da cidade para o Centenário da Independência do Brasil. A área obtida com a derrubada do morro seria utilizada para montar a Exposição Internacional, palco da comemoração.

Os preparativos para a data festiva se deram assim que o terreno aplainado surgiu na antiga praia de Santa Luzia. Ocupando parte do espaço resultante da demolição do morro, a exposição foi montada numa grande avenida, onde ficavam os prédios construídos com o objetivo de servirem como exemplos das culturas dos países.

Terminado o evento, a área valorizada foi ocupada atendendo a necessidades não de ordem estética ou sanitária, razões apresentadas para a derrubada do morro, mas, sobretudo, econômicas. Os lindos prédios construídos também foram derrubados. Poucas obras ficaram de pé. Um deles, o pavilhão da França, hoje ocupado pela Academia Brasileira de Letras.

O desmonte do morro, no entanto, não impediu a continuidade dos costumes. Sua história tem origem na fundação da cidade. Lá ficavam algumas construções históricas, como a Igreja de São Sebastião. Ali se realizava uma atividade religiosa praticada ainda hoje pelos frades capuchinhos, conhecida como “bênção dos barbudinhos”, na primeira sexta-feira do ano.

Desde meados do século XIX, a igreja era administrada pelos frades. Ela sobreviveria até 1922, quando o morro foi demolido. A atual Igreja de São Sebastião, situada na Tijuca, sucedeu à antiga igreja do morro, que datava do século XVI. Para o novo endereço, foram transferidas relíquias históricas, como os restos mortais do fundador da cidade, Estácio de Sá.

Portanto, os cariocas que costumam comparecer à bênção dos capuchinhos na rua Haddock Lobo, na primeira sexta-feira do ano, precisam saber que esse evento religioso, juntamente com outra importante tradição cultural e religiosa do Rio de Janeiro, a procissão de São Sebastião, realizada sempre no dia 20 de janeiro em homenagem ao santo padroeiro da cidade, é um patrimônio histórico, sendo seu local de nascimento um morro que existia no Centro, diante do mar.

Ricardo Augusto dos Santos
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