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Água sem gás

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Quando se está num botequim, atendendo a gente de tudo quanto é canto, gente de todos os estilos, gostos e manias, não dá pra saber o passado de cada uma delas. Mesmo assim, confesso que me pego olhando para algumas e imaginando pequenas histórias.

Ontem, num bar lotado de gente, Clara, uma das minhas personagens especiais, chegou sozinha e sentou-se à mesa do canto esquerdo. Geralmente, ela chega e logo procura a mesa central, e vai pedindo seu drink favorito. Ontem, porém… semblante tipo quarta-feira de cinzas. Chico foi até ela, pra saber o motivo de não ter dado boa-noite à equipe e não ter pedido nada na entrada. Ela sorriu meio de lado e, então, pediu uma água sem gás.

─ Água sem gás? Como assim? ─ Chico respondeu, com as mãos para o alto, como quem rejeita anotar um pedido tão absurdo.

Clara, sem se virar para Chico, com o olhar pendurado no horizonte, perdido, e com a cabeça escorada na parede:

─ Hoje preciso de um dia de realidade, saborear minha própria saliva. Preciso entender como cheguei até aqui.

Chico, sem entender muito bem, diz um “ok” meio de lado e vai saindo, observando sobre os ombros aquela cena estranha, da mulher mais ensolarada do botequim. Clara estava nebulosa.

Nem todos os dias as guerreiras estão dispostas a guerrear. Dias do NADA. Nada de sair provando pra Deus e o mundo a força que têm, porque nada nos impede de parar quando precisamos de nós mesmas e aceitamos esse chamado. O princípio da liberdade é estarmos bem com a nossa essência, aceitando nossos limites, para que no momento seguinte a escolha seja: segue em frente ou avança. Não há passado que retorne. A vida segue, independentemente de nossa vontade.

E nessa pura dose de realidade vem o entendimento de que nossos medos e autossabotagens não passam de projeções e expectativas negativas. Um retrocesso que só se reverte quando repensamos nossas atitudes e as mudamos, deixando de repetir padrões de comportamento. Nessa profusão de sentimentos, aprende-se que até nossos defeitos são necessários, como diria Clarice. Sem jogos, nem trapaças, viver sem representar uma personagem é ser autêntica e dona do próprio roteiro.

Chico chegou com a água, colocou sobre a mesa. Enquanto abria a garrafa e colocava o líquido no copo, Clara dizia ao amigo garçom: “Eu devo reconhecer que ninguém me conhece. Não realmente. Os que mais sabem não sabem da metade. Não deixo todos os segredos escaparem de mim, não mesmo. Uma delicadeza com os outros, eu diria, pois não quero assustar as pessoas com meu passado. Em especial aquelas que continuaram gostando de mim após o pouco que souberam. Mesmo porque aquela, que fez aquilo, não está mais aqui. Eu sou literalmente outra.” (Fernanda Young)

E a noite foi barulhenta, mas ao redor de Clara o silêncio era ensurdecedor. Bebeu sua água. Não se demorou. Foi embora antes que percebêssemos sua ausência.

E segue o seco, Chico! Botequim lotado!

Alma, a gerente.

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